Em 2017, li uma reportagem do Buzzfeed sobre Ricardo Correa, o Fofão da Augusta. Eu nunca fui a São Paulo, logo, até então a figura era desconhecida para mim. A reportagem do Chico Felitti me lembrou de uma das coisas que me fizeram escolher o Jornalismo: a capacidade de registrar a literatura da realidade, que muitas vezes fica escondida pela fumaça dos canos de escapamento. Imagine a minha felicidade quando um anúncio apareceu no meu Instagram: a história virou livro e ganhou outro personagem principal, Vânia, com quem Ricardo teve um relacionamento de nove anos. A obra será lançada nesta quinta (21) e sexta-feira (22), em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Por duas décadas, Ricardo morou nas ruas de São Paulo. O apelido surgiu devido à sua aparência: obcecado por cirurgias plásticas, o artista e cabeleireiro injetava silicone em seu rosto. Mas, além da figura excêntrica que perambulava pelas ruas e era alvo de piadas pelos transeuntes, a história do “Fofão da Augusta”é marcada pela marginalização fruto da homofobia e da falta de tato que a sociedade tem com transtornos psicológicos – ele era esquizofrênico.

 

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Quando foi internado no Hospital das Clínicas de São Paulo na Páscoa de 2017 para a amputação de um dedo, Ricardo Correa da Silva ainda era, para a maioria, um homem sem nome nem sobrenome, marginalizado em todas as frentes, mas com status de lenda urbana e um apelido que odiava: “Fofão da Augusta”. ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ Com a publicação da matéria de Chico Felitti no BuzzFeed em outubro do mesmo ano, o homem a um só tempo tão conhecido e desconhecido das incontáveis pessoas que cruzavam com ele na região da Augusta ganhou uma identidade, uma história. Filho de Araraquara, Ricardo havia fugido da cidade do interior na década de 70, deixando para trás anos de bullying e violência por ser “diferente”. Era ambicioso, gay, artista e esquizofrênico. Não necessariamente nessa ordem. Em São Paulo, se consolidou como cabeleireiro e maquiador estrelado. Obcecado com a ideia de ficar tão bonito quanto bonecas de louça chinesas, começou a injetar o silicone que deformaria seu rosto. Na década de 90, saltou dos salões de beleza para as ruas, consequência de seu comportamento errático e de um calote. Ali liderou trupes de palhaços que angariava fundos para espetáculos que nunca aconteceriam, distribuiu panfletos de peças, virou host de festas underground, pediu esmolas, apanhou: “A rua não é a sala da casa da gente. Tem que ter muito tato, muita sensibilidade.” No mesmo ano da reportagem, seis dias após completar sessenta anos, Ricardo morreu vítima de uma parada cardíaca. ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ A história de Ricardo poderia ser a mais triste de todas, mas entre o apogeu e o submundo ele viveu um grande amor com Vânia Munhoz, que um dia se chamou Vagner e hoje vive em Paris. Ao compartilhar com Felitti as lembranças de sua vida com Ricardo e detalhes de sua trajetória, Vânia deu um novo capítulo genial e inesperado à essa história. ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀ RICARDO E VÂNIA já está nas livrarias e no nosso site. Sessões de autógrafos nessa quinta-feira (21), às 19h30, no Cabaret da Cecília, em São Paulo, e sexta-feira (22), às 20h, no Buraco da Lacraia, no Rio de Janeiro. #todavialivros #RicardoeVânia

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Chico Felitti conta que conheceu Ricardo logo quando chegou em São Paulo. “No começo fiquei assustado, tanto pela aparência, quanto pelas histórias que as pessoas contavam sobre ele ser violento. Mas, conforme fui cruzando com ele, comecei a acenar e cumprimentar. E ele sempre foi educado”, afirmou. Desses breves contatos, foi surgindo no jornalista a curiosidade de saber mais sobre a história daquele misterioso homem, assim surgiu a reportagem veiculada no Buzzfeed.

No mesmo ano em que a matéria foi publicada, Ricardo faleceu, mas antes, reencontrou uma das pessoas mais importantes na sua trajetória. Vânia e Ricardo estiveram juntos por nove anos, compartilharam a vida pessoal e profissional, quando ela ainda não tinha feito a sua transição de gênero. Após terminarem o relacionamento, ficaram por 20 anos sem se falar, mas se reconciliaram após Vânia ter lido a reportagem.

“Ricardo e Vânia” é o jornalismo trazendo à tona essas personalidades da vida real, tão queridas, tão peculiares. Como o pessoal é político, a reflexão sobre a marginalização de LGBTs e pessoas com transtornos psicológicos é inevitável.  “Acho que foi a experiência profissional mais intensa da minha vida, porque não tinha prazo para a entrega. Tinha dias em que eu passava mais de 12 horas com ele”, disse Chico, em entrevista ao Diz Lua.

 

 

 

Luana Maria

Autor Luana Maria

Luana Silva: jornalista, apaixonada por trilhas sonoras e viciada em música.

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